
“Quando você veio me falar dos medos que você não tinha, eu entristeci, porque tinha todos. Eu tinha todas as falhas e fissuras que você enumerava não fazer parte de você: insegurança, medo, ciúme. E eu ainda tenho tudo isso, principalmente em dias de chuva, quando o barulho no telhado me remete a você e ao quarto escuro e ao poema que você nunca conseguiu ler em ritmo agradável. Meu rasgo dói em dias de relâmpago, quando o frio ameaça trincar a janela e eu não consigo dormir com os clarões no guarda-roupa. Dentro de mim, te vejo observando a parede do quarto e sinto um lágrima escorrer do seu olho. Sinto que você procura uma respiração que não encontra, que anseia por um calor que não possui, que vive de passado; feito eu. Mas às vezes também sinto que isso não passa de apoio; de desculpa. Algo pra me prevenir da loucura que é pensar em te ver feliz, em dias de sol, enquanto eu fico dentro de casa lendo as revistas da minha mãe. Eu vou te ligar pra perguntar aonde foi parar a agenda com frases perdidas e o telefone da psicóloga. Vou te ligar pra perguntar como deve ser um café-da-manhã saudável e pra saber se o seu trabalho ainda continua firme, no prédio acinzentado da rua mais afastada do centro da cidade. Porque algumas coisas, eu sei, você não vai saber, e nem pode: da caneta azul escuro que escrevia de uma forma mais intensa que as outras; da meia furada que ficava no fundo da gaveta junto com a câmera fotográfica; dos amores antigos, que caíram com o tempo… Querendo ou não, alguma coisa a gente sempre perde.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário